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GEOPOLÍTICA DA ENERGIA: OS MINERAIS CRÍTICOS COMO FONTE DE CONFLITO INTERNACIONAL 

  • Mario A. Santos
  • Aug 26, 2025
  • 6 min read

Mario A. Santos

Doutorando em Relações Internacionais (IRI PUC-Rio) e em Ciências Militares (PPGCM-ECEME), tendo atuado como pesquisador no IPEA/DF nas áreas de inovação e relações bilaterais China-Brasil.



I – APRESENTAÇÃO

A energia vem, desde longo tempo, moldando o cenário geopolítico global, sendo determinante na atuação de grandes potências, formação de alianças entre Estados e responsável pelo surgimento de inúmeros conflitos internacionais, de forma que toda ordem internacional que emerge tem sido baseada em um especifico recurso energético, a exemplo do carvão no século XIX, do petróleo no século XX e, muito provavelmente, dos renováveis no século XXI (Hafner e Tagliapietra, 2020).


Em adição, o atual cenário geopolítico global pode ser claramente vislumbrado sob a ótica da corrente realista das Relações Internacionais, caracterizado por um ambiente anárquico onde Estados competem frequentemente entre si por recursos de poder e capacidades materiais que lhes propiciem preponderância no sistema internacional, o que vem sendo um vetor catalizador do recrudescimento da competição internacional interestatal.


Ressalta-se a crescente demanda por processos de mitigação ambiental, intensificação do processo de transição energética global e descarbonização da economia, tornando os minerais críticos (elementos essenciais para alavancar a descarbonização da economia) um constante elemento de disputas e conflitos pela posse e domínio de suas respectivas cadeias de valor, seja no âmbito geopolítico ou comercial (Kalantzakos, 2020; Scholten, 2023).


Assim, esse ensaio, elaborado com base em uma metodologia qualitativa, visa tecer uma breve análise sobre como minerais críticos – sobretudo lítio e terras raras – vêm sendo vetores de disputas e conflitos internacionais entre os Estados. Esses, por sua vez, passam a fazer uso de variados instrumentos geoeconômicos, a exemplo de políticas de restrição de exportações, no intuito de fazer valer seus respectivos interesses estratégicos no tabuleiro geopolítico global.


No processo de desenvolvimento deste ensaio, a utilização do arcabouço teórico da Geopolítica (Cohen, 2015) e da Geoeconomia (Luttwak, 1990; Blackwill e Harris, 2016), mostram-se essenciais para análise da dinâmica dos minerais críticos em âmbito global.


II – OS MINERAIS CRÍTICOS NO CENÁRIO GLOBAL

O controle de recursos naturais estratégicos é claramente vislumbrado no cenário global como um importante ativo de poder dos Estados, o que leva ao desenvolvimento de esforços nacionais visando não apenas manter esse controle, como também explorá-lo economicamente, algo que vem sendo a tônica ao longo dessas duas última décadas no que tange aos minerais críticos.


Essenciais para a descabornização da economia e para o processo de transformação energética, os minerais críticos encontram-se geograficamente concentrados e bastante vulneráveis à disrupção, o que cria uma dependência global com relação ao fornecimento desses e engendra uma corrida entre os Estados para se garantir o acesso a tais minerais e, por vezes, restringindo-o aos demais, dinâmica essa que aumenta de forma exponencial a competição internacional interestatal (Kalantzakos, 2020; Santos, 2024).


Também relevantes para o desenvolvimento da economia digital e presentes em componentes fundamentais de produtos de alta tecnologia, a demanda pelos minerais críticos vem crescendo de forma significativa e rápida na última década, com um mercado estimado em cerca de U$400 bilhões (Cohen, 2023), fator que impulsiona a corrida pelo domínio das cadeias de valor desses minerais e propicia o acirramento das disputas internacionais.


Esse cenário se mostra ainda mais complexo no caso do lítio e das terras raras, dada não só a acentuada importância desses minerais para a produção de tecnologias limpas para transição energética e para a indústria de defesa, mas também por estarem relacionados à ascensão global chinesa e à preponderância da China em renováveis, o que enseja inúmeras disputas e rivalidades com outros Estados (Santos, 2024).


Neste sentido, cabe trazer à tona as implicações da preponderância chinesa face às cadeias de valor de minerais críticos e os desdobramentos daí derivados no que tange ao surgimento de disputas internacionais no setor de energia renovável.


III – DISPUTAS INTERNACIONAIS EM ENERGIA: A CHINA FACE ÀS CADEIAS GLOBAIS DE VALOR DE MINERAIS CRÍTICOS   

Segundo Church e Crawford (2018), quando um único Estado detém uma posição dominante em uma cadeia de valor significativa, isso leva, em geral, ao aumento dos riscos e de uma potencial disrupção econômica, implicações essas que se tornam ainda mais acentuadas no que tange às cadeias de valor de minerais críticos, cuja demanda e competição geopolítica associadas são crescentes, propiciando grandes vantagens a Estados detentores de considerável montante de reservas e fortalecendo a posição de dominância no processamento e produção desses minerais.


No que tange às cadeias globais de valor de minerais críticos, a China – seja devido à abundância de recursos minerais que possui, detendo mais de 1/3 das reservas globais de terras raras, seja como resultado de consistentes e estruturadas políticas governamentais adotadas – tornou-se o Estado dominante na cadeia global de valor em tecnologia limpa renovável, ostentando uma posição dominante em energia renovável (Nakano, 2021; Santos, 2025).


Abaixo temos a dimensão da posição chinesa nas cadeias globais de valor de minerais críticos.

          Fonte: Nakano (2021)


Sem embargo, a posição chinesa em renováveis vem sendo motivo de crescentes preocupações para outros Estados, que se veem dependentes das exportações chinesas de minerais críticos, sobretudo os terras raras, para alavancar projetos nacionais de desenvolvimento. Por seu lado, a China faz uso, por vezes, de uma política de restrições de exportações como forma de obter determinadas vantagens geopolíticas ou mesmo retaliar diante de medidas adotadas contra os interesses chineses no plano internacional, engendrando uma série de disputas geoeconômicas ancoradas nos minerais críticos (Santos, 2024).


Segundo a 2019 Report To Congress Of The US-China Economic and Security Review Commission (USCC, 2019):

Threatening to ban rare earths exports: On May 28, the NDRC released a question-and-answer document suggesting China could cut rare earths exports to the United States as a retaliatory measure (…) State-run rare earths industry associations have also voiced broader support for ‘counter measures against U.S. import tariffs on Chinese products.’ Rare earths supplies are critical to U.S. national security, with China accounting for 80 percent of the U.S. supply from 2004 to 2017 (2019, p.49).


Diante de um anterior litígio no âmbito da OMC ocorrido em 2010, ocasião em que Japão, EUA e EU denunciaram a China pela redução das quotas de exportação de terras raras, o que visava, segundo alegações dos reclamantes, manter a condição de dependência e carência desses face às exportações chinesas, observa-se que essa tem sido a tônica no atual cenário geopolítico mundial, pontuado por inúmeras disputas relacionadas aos minerais críticos.


De forma inequívoca, tais minerais vem se mostrando mais um aspecto a ratificar a preponderância chinesa em renováveis, bem como um vetor de intensificação da competição geopolítica global.


IV – CONCLUSÕES

Sob as lentes da Geopolítica e da Geoeconomia buscou-se mostrar aqui como os minerais críticos estão localizados no centro de disputas internacionais entre os Estados no âmbito da transição energética global, tendo em vista a percepção de que a energia tem figurado, desde séculos anteriores até o momento atual, como um elemento que vem moldando a configuração geopolítica  conforme a matriz energética predominante.


Assim, observa-se que o domínio das cadeias globais de valor desses minerais é um fator que vem impulsionando a competição geopolítica e disputas internacionais, contexto no qual a China desponta como o Estado que detém a preponderância em renováveis e a utiliza como um importante instrumento geoeconômico em suas relações internacionais.


V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLACKWILL, R.; HARRIS, J. War by Other Means: Geoeconomics as A Statecraft. New York: Council on Foreign Relations, 2016.

CHURCH, C.; CRAWFORD, A. Green Conflict Minerals: The Fuels of Conflict in The Transition to A Low-Carbon Economy. International Institute for Sustainable Development (IISD). IISD Report. Canada. August, 2018.

COHEN, J. Resource Realism: The Geopolitics of Critical Minerals Supply Chains. Goldman Sachs. Published on 13 September, 2023. Disponível em Resource realism: The geopolitics of critical mineral supply chains | Goldman Sachs

COHEN, S. B. Geopolitics: The Geography of International Relations. Lanham, Maryland: Rowman and Littlefield, 2015.

HAFNER, M.; TAGLIAPIETRA, S. (Ed.). The Geopolitics of The Global Energy Transition. Lecture Notes in Energy, Vol. 73. Springer Open, 2020.

KALANTZAKOS, S. The Race for Critical Minerals in an Era of Geopolitical Realignment. The International Spectator 2020, Vol. 55, Nº. 3, p. 1–16. 2020. Disponível em The Race for Critical Minerals in an Era of Geopolitical Realignments: The International Spectator: Vol 55, No 3 (tandfonline.com)

LUTTWAK, E. From Geopolitics to Geo-Economics: Logic of Conflict, Grammar of Commerce. The National Interest nº 20. Summer 1990, p. 17-23. Disponível em From Geopolitics to Geo-Economics: Logic of Conflict, Grammar of Commerce on JSTOR

SCHOLTEN, D. Handbook on The Geopolitics of The Energy Transition, Cheltenham, Edward Elgar Publishing, 2023.

SANTOS, M. A. O Papel da China na Geopolítica da Transição Energética: Ações e Reações em Âmbito Global. Revista de Geopolítica. Vol. 15, nº. 2, 2024. Disponível em O papel da China na geopolítica da transição energética: ações e reações em âmbito global | Santos | Revista de Geopolítica

SANTOS, M. A. Green Development in The Global South: A Critical Analysis on China’s Approach. In BAKARE, N.; SAUD, A. (eds.). China’s Globalisation and The New World Order. Palgrave Macmillan. 2025. p.365-390.

US-CHINA ECONOMIC AND SECURITY REVIEW COMMISSION (USCC). 2019 Report to Congress. US Government Publishing Office. Washington. 2019. Disponível em Annual Reports | U.S.- CHINA | ECONOMIC and SECURITY REVIEW COMMISSION

 
 
 

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